quinta-feira, 8 de maio de 2014

O encontro de dois ases dos motores!


 
       
 
        Em 1981 assumi o emprego de auxiliar de escritório na Caixa Econômica Federal. À época, passar no concurso da Caixa era algo do outro mundo. Dizia-se que nunca mais teria problemas de emprego ou financeiro o felizardo que entrasse em tal banco. Aliás, não éramos bancários (hoje somos), éramos economiários federais.
  Minha primeira providência ao assumir meu posto, no prédio da rua Tupinambás, foi correr na Motocity, revenda Honda, e comprar uma moto de trail. Eu tinha alguns amigos que gostavam de percorrer os arredores de Belo Horizonte nos finais de semana, passando por trilhas e depois de um dia inteiro de poeira, paravam em bares e tomavam uma deliciosa cerveja gelada!
  De posse da nova aquisição, reuni a turma de amigos e fundamos uma equipe de trail que se chamava Trail de Ferro. Participávamos de vários enduros, cada qual com o nome mais estranho e sinistro: “Enduro Batman e as mil noites de Bárbara”, “Enduro Cucuruto do Camelo Voador”, “Enduro Sete Horizontes” e outros tantos. Aliás, participei do primeiro Enduro da Independência, onde penei na subida do oleoduto em Barbacena.
Nos sábados saíamos para as trilhas pesadas e nos domingos eu sempre convidava uma gatinha para passear nas trilhas mais leves na minha garupa. Já naquele tempo havia muitas periguetes. Após as trilhas de sábado íamos para a Praça da Liberdade, que era o point, e as meninas adoravam ver-nos com as roupas coloridas, os coletes de jogador de futebol americano, as botas importadas da Itália, além da sujeira, que variava da poeira extrema à lama impiedosa. Era fácil conseguir uma gatinha para a garupa de domingo.
Nossa preferência era pelas trilhas mais para o lado de Nova Lima e Macacos. Tais trilhas propiciavam todos os tipos de emoções, com poeira, cascalho, lama, rios para atravessar, florestas, cavas e outras emoções. Os nomes das trilhas eram escolhidos de acordo com a época em que eram descobertas. Na época da Guerra das Malvinas, surgiu a trilha das Malvinas, dificílima, com uma subida muito íngreme no meio de uma mata e com uma raiz enorme de uma árvore, bem no meio de uma curva. Havia a trilha da Perdida, da Sumida e da Desaparecida, que formavam o conjunto conhecido como “Perdida” e que propiciava todo os tipos de emoções, finalizando junto ao cemitério de Macacos, após a travessia de um rio e uma subida cascalheira. Tínhamos a trilha Lucélia Santos, porque foi descoberta quando a atriz estrelou o filme “Bonitinha mas ordinária”. Tinha Jardins de Petrópolis, He-man, Noviça, Caminho dos Escravos, Trilha do sol, Trilha da Lua, e a Speedway entre tantas outras.





Depois de uma manhã de muito sufoco, parávamos em Macacos em um bar de secos e molhados, de uma senhora conhecida como Dona Dica. Como frequentávamos muito tal bar, ela já deixava vários pedaços de frango fritos e a cerveja gelando. Tempos depois, Dona Dica construiu um restaurante em cima do antigo bar e virou celebridade no Guia Quatro Rodas. No quintal de Dona Dica havia vários pés de jabuticaba e o final de ano era uma festa só! Bons tempos!
Certo dia, reunimos a equipe e após um bom repasto na Dona dica, resolvemos atravessar a BR 040 e ir até o Morro do Elefante, que fica em frente à antiga fábrica de cerveja Ouro Branco (que pertencia a Felício Brandi), e depois virou fábrica da Skol. Subimos e descemos bastante e alguém se lembrou que havia um novo loteamento ali perto, que se chamava Jardim Canadá, onde haveria uma pista de moto-cross.
Para lá nos dirigimos e depois de rodar por inúmeras quadras e quarteirões desabitados, vimos alguns carros parados com uma galera por lá.
 Fomos ao encontro do pessoal e vimos que havia uma pista de pouso para aeromodelismo, o que era uma novidade para todos nós que adorávamos novidades. O que mais me chamou atenção foi um rapaz, mais ou menos da minha idade, que tinha um avião controlado por controle remoto. A maioria dos aviões era controlada por um fio ligado na asa e em uma alça que ficava na mão do piloto, fazendo com que a aeronave voasse em círculos. O tal rapaz era paulista e me contou que vivia na Europa, onde participava de corridas de automóveis. Tinha comprado aquela aeronave de controle remoto em Londres e estava em Belo Horizonte visitando um amigo que também era apaixonado por aeromodelismo e corridas de automóvel. O amigo pertencia a um grupo que havia preparado aquela pista de pouso para a prática do esporte tão caro e elitizado.
O tal rapaz ficou muito interessado na minha moto, pois disse que não sabia da existência de praticantes de Trail no Brasil. Disse que na Europa era muito comum, principalmente nas regiões de montanhas. Fez várias perguntas e engatamos uma bela prosa. Me contou que era piloto de kart e que, depois de vários estágios, havia chegado a uma categoria na Inglaterra que era como um vestibular para a Fórmula 1.
Eu era fã da Fórmula 1 e ia todos os anos a Jacarepaguá assistir o Grande Prêmio Brasil e torcer para Nelson Piquet, meu ídolo. Disse ao meu novo amigo que um dia iria assisti-lo no Rio de Janeiro e torcer por ele. Naquele momento, meu amigo me revelou que estava negociando com uma pequena equipe de Fórmula 1 chamada Toleman, e que, talvez no próximo ano eu já poderia torcer por ele.
Após muito bate-papo eu e meus amigos resolvemos descer para Belo Horizonte e tomar um chopp e comer uma pizza na Fox Pizzaria na Prudente de Morais. Lá chegando, contei aos amigos a conversa que tive com o paulista e rimos muito, pois o papo dele era extremamente exagerado. Imagina só, piloto de Fórmula 1 em Jardim Canadá! Que exagero! Pilotos de Fórmula 1, àquela hora, deveriam estar em Mônaco, Saint Tropez e Cinque Terre! Como poderia um piloto estar brincando de avião em um terreno poeirento como aquele! Rimos demais!
Do que mais rimos foi quando contei que eu havia pedido para pilotar o avião dele com o controle remoto e ele negou, dizendo que era necessário muito tempo de prática para pilotar tal equipamento. Logo em seguida ele me perguntou se poderia dar uma volta em minha moto de trail para experimentar, no que respondi prontamente que não, pois era necessário muito tempo de prática para pilotar tal equipamento. Até hoje rio demais quando me lembro.
No ano seguinte, ao assistir um programa de televisão sobre a temporada da Fórmula 1, me assustei quando vi meu amigo paulista no vídeo, sendo anunciado como um novo brasileiro na Fórmula 1 pilotando uma Toleman. Aí então descobri o nome dele: Ayrton.
Passou a ser meu ídolo e passei a vê-lo sempre na TV. Nunca mais nos encontramos depois daquele dia. Mas foi um dia que ficou marcado em minha memória como um dia muito feliz!




 
       

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