Análises interessantes são
reproduzidas aqui. A análise abaixo é sobre o faturamento dos clubes no
ano de 2012, e mostram que a maneira que arrecadam continua do mesmo
modo que sempre foi feita: sem imaginação e não aproveitando o enorme
mercado que a paixão proporciona.
A reportagem foi extraída do site da revista Veja e pode ser acessado no
link abaixo, onde há muito mais informações sobre o assunto.
Futebol
http://veja.abril.com.br/noticia/esporte/receita-dos-clubes-dispara-e-passa-dos-3-bilhoes-de-reais
Receita dos clubes dispara e passa dos 3 bilhões de reais
Estudo do especialista
Amir Somoggi mostra um salto de 38% no faturamento das 20 maiores
agremiações do país. Mas dependência da TV fica ainda maior
Giancarlo Lepiani
"Foi um ano atípico e positivo, mas os clubes não aproveitaram a
oportunidade para criar estruturas diferenciadas e convencer o mercado a
enxergar o futebol como grande negócio", diz o autor do estudo
O futebol brasileiro está cada vez mais rico - mas isso não quer dizer
que os grandes clubes do país já estejam aproveitando todo o potencial
econômico da grande paixão nacional. Um novo estudo do consultor Amir
Somoggi, um dos principais especialistas em gestão e marketing esportivo
do país, revela que os vinte maiores clubes brasileiros ultrapassaram a
barreira dos 3 bilhões de reais de faturamento no ano passado, um
crescimento de 38% em relação a 2011. O aumento da receita consolidada
conjunta dessas agremiações - de 2,24 bilhões para 3,08 bilhões - é
inédito, mas a principal explicação para esse salto não é a modernização
do nosso futebol, mas sim a renegociação dos direitos de transmissão de
TV. No ano passado, os clubes encheram os cofres com as luvas dos novos
contratos assinados com a Rede Globo, que teve de abrir o bolso para
driblar a concorrência da Record e manter o Campeonato Brasileiro em sua
grade de programação. Os clubes ficaram ainda mais dependentes do
dinheiro da TV: as cotas de transmissão, que correspondiam a 36% das
receitas totais em 2011, passaram a representar 40% do faturamento
conjunto dos clubes no ano passado. Enquanto isso, as fatias
correspondentes às arrecadações com bilheteria, patrocínio e
publicidade, fontes importantes de receitas nas ligas mais lucrativas do
planeta, encolheram na temporada passada.
As finanças dos maiores clubes brasileiros
"Foi um ano atípico e positivo, mas os clubes não aproveitaram a
oportunidade para criar estruturas diferenciadas e convencer o mercado a
enxergar o futebol como grande negócio", diz Somoggi. "O nosso modelo
ainda pode ser considerado arcaico. Temos muito a evoluir, e o mercado
espera isso." O autor do estudo mostra preocupação com os resultados
financeiros da temporada 2013. Afinal, os montantes generosos recebidos
pelos clubes que assinaram contratos com a Globo correspondem às luvas
de acordos de longa duração. Os clubes parecem não ter planejado o uso
escalonado desses recursos - muitos torraram todo o dinheiro ou boa
parte dele com gastos imediatos. O levantamento feito por Amir Somoggi
revela que o montante investido pelos grandes clubes no ano passado
atingiu 1,89 bilhão de reais (sem contar os gastos do Flamengo, que não
apresentou em seu balanço os custos de seu departamento de futebol). A
alta estimada nas despesas foi de cerca de 26% em apenas um ano. Como a
tendência é de que os investimentos nos departamentos de futebol
continuem elevados - conforme o consultor, só os times rebaixados ou
mergulhados em graves crises costumam realizar cortes significativos de
gastos -, muitos clubes deverão enfrentar dificuldades para cobrir suas
despesas na atual temporada. A saída seria variar e ampliar as fontes de
receita, explorando melhor áreas como o gasto do torcedor no estádio e
as ações de marketing.
"Nosso futebol está em evolução, mas os dirigentes brasileiros ainda
têm uma visão muito limitada do futebol como negócio", explica Somoggi,
que completou uma década de acompanhamento detalhado dos balanços
financeiros dos clubes. Em seu primeiro estudo, realizado em 2003, as
fatias correspondentes a cada fonte principal de receita dos clubes não
eram muito diferentes do que são hoje. Quem previa um grande salto nas
ações de patrocínio e publicidade em função da proximidade da Copa do
Mundo, por exemplo, se decepcionou. Entre 2011 e 2012, o crescimento
absoluto do marketing como fonte de receita dos vinte principais times
do país foi de apenas 10,4 milhões de reais. Ao mesmo tempo, as cotas de
TV tiveram um incremento espantoso: 435,8 milhões de reais. No decorrer
da década analisada pelo consultor, a dependência dos grandes clubes
mudou em um aspecto importante: antes, eles apostavam nas transferências
de atletas ao exterior para equilibrar as contas; hoje, se escoram no
dinheiro repassado pela TV para bancar suas despesas. Com o crescimento
econômico do país, os clubes já conseguem manter seus grandes craques no
futebol brasileiro e até repatriar grandes nomes que atuavam havia anos
no exterior. Ainda assim, a venda de jogadores continua sendo uma fonte
importante de recursos (14% do total das receitas dos grandes clubes).
Graças ao salto no dinheiro proveniente da TV, as vinte principais
agremiações brasileiras fecharam 2012 mais perto do azul (quando são
contabilizadas receitas extraordinárias recebidas por Palmeiras e
Atlético-PR em função das reformas de suas arenas, há superávit de 23
milhões de reais nesse pelotão de elite do futebol nacional). Os gastos
excessivos e sem planejamento e a manutenção de um modelo obsoleto devem
levar os números de volta ao vermelho depois de apenas uma temporada.
Um modelo antiquado - e que ainda persiste
Em uma década, a distribuição das fontes de
receitas mudou pouco. A participação da bilheteria no faturamento total,
por exemplo, ficou no mesmo patamar. Em 2007, auge do êxodo de
jogadores
brasileiros para o exterior, as transferências de atletas eram
fundamentais para pagar as contas. Agora, a dependência é dos direitos
de TV.