sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Tesouro deficitário...

Com rombo recorde em setembro, Tesouro passa a ser deficitário no ano, pela primeira vez desde o Plano Real

Por Dinheiro Público & Cia
31/10/14 10:04
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O governo Dilma Rousseff gastou além de sua arrecadação pelo quinto mês consecutivo, e o Tesouro Nacional agora acumula até setembro um deficit inédito em duas décadas.
No mês passado, as despesas com pessoal, programas sociais, investimentos e custeio superaram as receitas em R$ 20,4 bilhões, o maior valor em vermelho já contabilizado em um mês. Com isso, o resultado do ano passou de um saldo fraco para um rombo de R$ 15,7 bilhões.
Em outras palavras, o governo federal teve, de janeiro a setembro, deficit primário, ou seja, precisou se endividar para fazer os pagamentos rotineiros e as obras de infraestrutura.
Nas estatísticas do Tesouro, é a primeira vez que isso acontece por um período tão longo desde o Plano Real, lançado em 1994 -os dados anteriores são distorcidos pela hiperinflação e não permitem comparações apropriadas.
A deterioração das contas federais começou em 2012, quando o governo acelerou seus gastos na tentativa de estimular a economia, e o descompasso entre receitas e despesas se agravou neste ano eleitoral.
As primeiras, prejudicadas pela debilidade da indústria e do comércio, tiveram expansão de 6,4% até o mês passado; as segundas, de 13,2%.
A escalada dos gastos neste ano é puxada pelos programas sociais -especialmente em educação, saúde e amparo ao trabalhador- e pelos investimentos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).
O desequilíbrio fiscal produziu um círculo vicioso na economia, ao elevar a dívida pública, alimentar o consumo e dificultar o controle dos preços. Com credores mais temerosos e inflação elevada, o Banco Central precisa manter juros altos, comprometendo ainda mais o crescimento da economia e a arrecadação.
O secretário do Tesouro, Arno Augustin, finalmente admitiu que a promessa de fazer um superavit primário de R$ 80,8 bilhões neste ano será descumprida.
Pela Lei de Diretrizes Orçamentárias, o saldo pode ser reduzido a R$ 49 bilhões. O governo, no entanto, vai propor ao Congresso a alteração da lei para permitir um resultado ainda menor.
Passadas as eleições, o mercado aguarda o anúncio de medidas para conter despesas e elevar receitas. As alternativas à disposição do governo, porém, não são animadoras.
Cerca de três quartos do Orçamento são ocupados por pagamentos obrigatórios, como salários, repasses ao Sistema Único de Saúde, benefícios previdenciários e assistenciais. Por isso, as vítimas preferenciais dos ajustes são as obras públicas, das quais o país precisa para enfrentar as deficiências da infraestrutura.
Um aumento de impostos elevaria ainda mais a carga tributária do país, a mais alta do mundo emergente ao lado da argentina -e criaria um desgaste político adicional para uma presidente que acabou de passar por uma reeleição apertada.

 Texto extraído da coluna Dinheiro Público e Companhia do Jornal Folha de São Paulo com Textos de Gustavo Patu e infografias de Mario Kanno, ambos jornalistas da Folha
Pode ser lido no link:
http://dinheiropublico.blogfolha.uol.com.br/2014/10/31/tesouro-passa-a-ser-deficitario-no-ano-pela-primeira-vez-desde-o-plano-real/

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Visita das Azul Guerreiras!


Incluo no meu blog o texto das meninas do Blog Azul Guerreiras que visitaram a Confraria San Sebastian!


http://azulguerreiras.com/2014/09/01/um-dia-na-confraria-san-sebastian/
Obrigado às meninas pelas simpáticas palavras e também pelo prestígio da visita à Confraria.



Um dia na Confraria San Sebastian

Confraria03(1)
A arte de administrar é importante em vários setores da sociedade, seja na gestão de empresas, setores e órgão públicos, de uma cidade ou até mesmo de uma nação. E não seria diferente com o futebol. Um clube não se torna vencedor da noite para o dia. As páginas de uma história vitoriosa são construídas, acima de tudo, com muito planejamento e organização.
Um time forte em campo é resultado de uma diretoria eficiente fora das quatro linhas, que sabe contratar, gerir finanças, criar canais de relacionamento e comunicação com os torcedores e prestar contas aos investidores e patrocinadores, dentre tantas outras funções. São os diretores os responsáveis por selecionar, opinar e sugerir a contratação de jogadores e técnicos de futebol, bem como demitir aqueles profissionais que não apresentam resultados satisfatórios, tudo dentro do que estiver estabelecido contratualmente.
Manter uma diretoria competente não é tarefa fácil, mesmo assim, o Cruzeiro conseguiu mais esse efeito nesses últimos anos. Comandada pelo presidente Gilvan de Pinho Tavares, a diretoria celeste deu show de planejamento e hoje colhe os frutos. O time campeão brasileiro em 2013 foi montado com responsabilidade financeira e estratégia. Para 2014, manter o elenco já seria um desafio, porém, a diretoria foi além e reforçou o que parecia não ter como ficar melhor. O Cruzeiro possui o sócio torcedor que mais cresce no país, o que colabora para a saúde econômica do clube. Os sucessos são inúmeros e não são exclusividade desta gestão.
Presidente Gilvan, Presidente do Conselheiro Fiscal Anísio Ciscotto e Vice-Presidente do Conselho Deliberativo João Carlos com as Azul Guerreiras
Presidente Gilvan, Presidente do Conselheiro Fiscal Anísio Ciscotto e Vice-Presidente do Conselho Deliberativo João Carlos com as Azul Guerreiras
Na última terça-feira, 26, algumas integrantes do Azul Guerreiras (Fernanda Maia, Júlia Alves, Natália Andrade, Renata Carvalho e Déborah Silva) tiveram a honra de participar da Confraria de San Sebastian a convite do Presidente do Conselheiro Fiscal Anísio Ciscotto e puderam entender um pouco mais dos bastidores do clube. A Confraria é um encontro semanal dos conselheiros do Cruzeiro que acontece no Parque Esportivo do Barro Preto para a confraternização, debates e prestações de contas. No evento, contratações de jogadores ou técnicos já foram barradas e incentivadas e projetos idealizados. São dessas reuniões que sai boa parte dos diretores que fazem do Cruzeiro um grande clube.
As integrantes do blog foram muito bem recebidas por todos e tiveram uma atenção especial dos conselheiros Anísio Ciscotto, Rafael Brandi e João Carlos Amorim que contaram sobre grandes feitos dos bastidores celestes. Anísio é presidente do Conselho Fiscal e João Carlos é vice Presidente do Conselho Deliberativo.  Rafael é filho Felício Brandi que, como presidente, realizou um trabalho divisor de águas na história do clube, trazendo o reconhecimento internacional ao Cruzeiro com aquele inesquecível time comandado por Piazza. O presidente Gilvan falou a respeito das últimas notícias do clube, sobre a sua candidatura a deputado estadual e ainda teve uma conversa de apoio pelo trabalho que o Azul Guerreiras realiza.
Fica aqui o obrigada de toda a equipe do Azul Guerreiras pela recepção e oportunidade de participar da Confraria de San Sebastian.
Rafael Brant, filho do ex-Presidente Felício Brant, com as Azul Guerreiras
Rafael Brant, filho do ex-Presidente Felício Brant, com as Azul Guerreiras

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Homenagem a um Grande Mineiro!

Hoje perdi um grande amigo. O Italiano Mineiro Giacomo Angelo Regaldo faleceu.
Regaldo era o Presidente da Câmara de Comércio Ítalo-Brasileira de Minas Gerais. Executivo do Grupo FIAT. Trabalhou muito no sentido de viabilizar oportunidades de negócios entre brasileiros e italianos.
Minas Gerais perde um filho muito ilustre. Merece virar nome de Avenida em Belo Horizonte.


Certa vez, ao ver a multidão de pessoas que transitavam pela Avenida Getúlio Vargas, durante a Festa Italiana, um artista italiano me disse: Se na minha terra, os italianos tivessem tanto amor pelo Italia como vocês ítalo-descendentes têm, nosso país seria muito melhor!
Hoje, ao olhar para trás e ver a obra do Amigo Giacomo Regaldo, eu poderia parafrasear o artista italiano dizendo: Se em Minas tivéssemos mineiros que trabalhassem tanto pelo nosso estado, como Regaldo trabalhou, com certeza seríamos o maior estado da Federação!
Regaldo foi um grande batalhador pelas coisas de Minas Gerais. Amava esta terra tanto ou mais que sua terra natal, a Italia. O seu olhar resoluto e sua visão empreendedora detectavam nas pessoas, instituições e acontecimentos, oportunidades de negócios e sinergia entre seus dois amores, o Brasil e a Italia. Sua vida e seu pensamento estavam sempre gravitando entre o perceber e o realizar. Foi um empreendedor no sentido mais profundo que tal palavra possa ter. 
Amante do trabalho voluntário, sempre teve a elegância e a diplomacia como armas de convencimento, captando pessoas que pudessem ajudá-lo em sua saga de estabelecer pontes entre duas nações.
Hoje perdemos o amigo Giacomo Regaldo de nosso convívio.
Hoje ganhamos a lembrança do exemplo que Giacomo Regaldo nos deixa. Exemplo de amor ao trabalho, à vida e as pessoas e, principalmente, exemplo de como uma liderança  deve ser exercida, trazendo muitos voluntários para o trabalho comunitário em prol dos ideais maiores.
Descanse em paz, Amigo Regaldo!
E que a Madona Achiropita, Nossa Senhora Aparecida, te receba com muitas festas e muito carinho! 

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Para conhecer um pouco da alma argentina!

Atendendo a sugestão do Ministro Joaquim Barbosa, para que leiamos o livro de Domingo Faustino Sarmiento - Facundo: Civilização e Barbárie, coloco no meu blog a monografia que fiz em 2005 para a conclusão de uma disciplina da Especialização em História e Culturas Políticas na UFMG.


                                                 Ainsi que l’ocean, les steppes remplissent l’esprit du sentiment de l’infini. (Humboldt)[1]
1    INTRODUÇÃO
         A ementa da disciplina Pensamento social e político hispânico-americano no século XIX começa explicando que tal disciplina constará do “estudo de obras representativas das mais importantes correntes do pensamento social e político hispano-americano no século XIX”.  Isto posto, escolhemos como tema para nosso trabalho de conclusão da disciplina a obra de Domingo Faustino Sarmiento, Facundo: civilização e barbárie, tentando, superficialmente, entender o pensamento político de tão grande figura da História argentina.
         Em sala de aula a obra de Sarmiento foi abordada, especificamente, em duas datas, 27 de setembro e 04 de outubro. Tentaremos conciliar nossas anotações feitas em classe, com a obra lida e bem apreciada, além de buscarmos validações de nossas impressões em outros autores contemporâneos de Sarmiento ou posteriores a ele.
         Tal obra de Sarmiento não foi muito divulgada no Brasil, pois foi publicada primeiramente em 1845 no Chile e somente em 1923 recebeu a primeira tradução para o Português. As eventuais diferenças entre o Brasil e os outros países da América Latina, tanto no que tange à forma de libertação do jugo colonial, quanto à forma de governo escolhida, fizeram que obras de pensadores políticos de países vizinhos demorassem a ser conhecidas pelos brasileiros, principalmente no século XIX. Não deixa de ser importante relembrar que, enquanto o Brasil escolheu o regime monárquico para conduzir seus destinos após a independência, os outros países sul-americanos preferiram a república. Também a maneira violenta, isto é, à custa de muita luta e sangue, como foram feitas as independências de nossos vizinhos, destoaram do cenário brasileiro.
         Para localizarmos a produção tal obra de Sarmiento e entendermos as suas posições políticas, devemos acompanhar a História da República Argentina na década de 1830. Em tal época, a Federação Argentina era constituída de províncias, cujos mandatários eram grandes estancieiros e a vontade política variava de acordo com os interesses de tais donos de terra. A legalização da propriedade agrária e regulamentação da mão de obra eram as grandes preocupações dos estancieiros e encontraram no governador da Província de Buenos Aires, Juan Manuel de Rosas, o expoente máximo de tal política.  A Argentina enfrentava, àquela época, lutas civis intensas e constantes em torno de dois grupos políticos, os federalistas e os unitários. Entre os primeiros encontravam-se Rosas e Facundo e entre os últimos Sarmiento.
         A obra de Sarmiento faz uma análise do contexto social e político da Argentina à época, discorrendo sobre os tipos comuns encontrados no país, trazendo à baila a dicotomia campo e cidade. O campo com a rusticidade, a pobreza, o desleixo e a violência. A cidade, no caso Buenos Aires, primando com a cultura, a beleza, as luzes e o sentimento de pertencimento a uma elite européia.
         A figura do homem aparece na obra de Sarmiento como um produto do meio geográfico onde vive. Desse meio brotava o originalidade e especificidade do povo argentino através da descrição de vários tipos, como o cantor, o gaúcho mau, o rastreador e outros.
         Dentre os tipos criados pela natureza dos campos, surgiram os protagonistas, como Facundo Quiroga, o caudilho de La Rioja, personagem principal da obra de Sarmiento.
2 BIOGRAFIA DE SARMIENTO
         Domingo Faustino Sarmiento nasceu em San Juan, província argentina de Cuyo em 1811, juntamente como os movimentos de independência do antigo Vice-Reino de Rio da Prata. Filho de uma modesta família, com pouca formação letrada, foi logo cedo enviado por seu pai às Escuelas de la Pátria, sendo alfabetizado muito cedo. Definia-se orgulhosamente como um autodidata, embora esboçasse amargura e um sentimento de inferioridade por não ter recebido uma educação formal. Sarmiento nunca apresentou modéstia a respeito de sua história, tanto é que aos 39 anos já havia publicado sua autobiografia[2], onde mesclava os fatos de sua vida com a vida da Argentina, legitimando assim, o futuro líder político que viria ser.
         As oportunidades que teve de prosperar nos estudos foram sempre tolhidas por eclosões de surtos de acontecimentos nacionais, como por exemplo, a entrada das tropas de Facundo Quiroga em sua cidade, quando estava prestes a ir estudar em Córdoba. As lutas sangrentas entre federalistas e unitários faziam com que fosse necessário tomar partido de uma facção, sendo que Sarmiento tomou partido dos unitários, uma vez que, como citado, fora prejudicado pelos federalistas. Tal comprometimento com os unitários fez com que aos 20 se exilasse, com seu pai, no Chile, retornando à sua casa em 1936, onde fundou a Sociedad Literária e o semanário da cidade El Zonda.
         Em 1840 é preso e retorna ao Chile, exilado, após ser preso pelo envolvimento em uma conspiração unitária. Passou a trabalhar no jornal de Valparaíso El Mercúrio. Politicamente alia-se ao partido conservador chileno e é enviado duas vezes aos Estados Unidos pelo governo. Já em Santiago funda o primeiro diário que se chamou El Progreso. É nesse jornal que publica como folhetim, Facundo ou civilização e barbárie. Era um livro que anunciava a futura atuação política de Sarmiento em favor da civilização e do progresso. Era muito lido e querido pelos chilenos que viviam uma fase de invasão do romantismo. Autores como Alberdi e Lopez, além de Sarmiento eram muito lidos[3] e comentados.
         Após a queda de Rosas em 1852, a carreira política de Sarmiento tornou-se brilhante. Foi governador de San Juan, Ministro de Estado, Senador, embaixador e Presidente da República entre 1868 e1874. Dedicou-se à causa da educação pública e durante seu governo, as escolas foram disseminadas por todo o país. Promoveu a “Campanha do Deserto” onde as populações indígenas foram deslocadas para o sul do país, numa tentativa de isolar a “barbárie”. Em 1852 foi condecorado por D. Pedro II em Petrópolis. Em 1881 é nomeado Inspetor Geral de Escolas levando à Inspetoria o seu conhecimento sobre sistemas de ensino em escolas de todo o mundo.
         Falece em 11 de setembro de 1888.

3 O LIVRO
         Sarmiento divide o seu livro em três partes:
         A primeira descreve o ambiente onde habita o gaúcho e como a natureza atua sobre ele, moldando e curtindo seu caráter. As vastidões corrompendo o homem e aflorando nele seus instintos mais selvagens. Dessa natureza brotam tipos próprios dos argentinos, como o rastreador, o vaqueano, o cantor e o gaúcho mau.
         Interessante como nas descrições há uma mistura muito forte do verdadeiro com a lenda. Talvez, por isso, se discuta até hoje se o livro é um romance, ficção ou meio biografia e meio história política. A estória do fugitivo condenado à morte que se esmerou em despistar o rastreador experiente, “aproveitando todos os acidentes do terreno para não deixar vestígios[4]” e não conseguiu, é um bom exemplo. Mesmo com toda a astúcia, foi executado para deleite do rastreador que o encontrou. Ou mesmo a estória de como conseguiu encontrar o rastro do ladrão que lhe roubara os arreios após dois anos! Segundo Sarmiento, havia um poder microscópico nas vistas do rastreador que lhe daria poderes fantásticos, e os seus depoimentos dados em juízo, tinham o valor de evidências.
         Assim como o rastreador há o vaqueano que é um gaúcho grave e discreto, que conhece palmo uma grande parte da planície, das matas e das montanhas. Consegue encontrar os caminhos na mais escura escuridão simplesmente mastigando ervas e raízes do solo onde se encontra. Consegue anunciar a proximidade do inimigo. Eis, pois o porquê de ser tão importante e se postar sempre ao lado dos generais argentinos.
         O Gaúcho Mau, apesar do nome, “não é um bandido, não é um salteador; o ataque à vida não entra em sua idéia,... rouba, é verdade, mas esta é a sua profissão, seu tráfico, sua ciência[5].” Conhece todos os cavalos que há na província! Mora nos Pampas, sua morada encontra-se nas moitas e vive da caça. É um selvagem de cor branca.
         E, finalmente entre os tipos descritos por Sarmiento, há o cantor. Não tem residência fixa e faz o mesmo trabalho que o bardo, ou trovador, fazia na Idade Média. Canta e exalta os feitos dos heróis dos Pampas. Mistura os feitos de outros com seus próprios feitos.
         Com tais descrições Sarmiento caracteriza o morador da campanha e dá as características sociais e morais dos caudilhos que dominam e infernizam as planícies, pois, em última instância, são oriundos desses tipos originais, como por exemplo, o General Rivera e Artigas que eram vaqueanos.
         Muito interessante é a analogia constante que Sarmiento faz entre o argentino, habitante dos Pampas e o árabe habitante do deserto no oriente. Como compara os dois tipos e acha muitas semelhanças entre eles. Os códigos de honra, a luta contra a desolação e o deserto, o relacionamento com os animais e a obediência aos poderosos são quase idênticos.
         A segunda parte do livro é pertinente à biografia de Juan Facundo Quiroga. Nasce na região de San Juan e constrói fortuna nos lhanos de La Rioja. Luta nas guerras de 1810. Possuía uma paixão feroz pelo jogo e várias atrocidades cometeu por causa desse vício. Jogava compulsivamente noites a fio e não admitia perder. Quando se tornou o poderoso e famoso caudilho argentino, protegido pelo seu exército e sua fama, aí sim não perdeu mais. Quem ousasse vencer, ou desse o azar de vencer, era logo punido com as mais horríveis das mortes. Por haver perdido todo o salário de um ano, quando era jovem, degolou um juiz que o havia parado pedindo documentos[6].
         Alia-se às montoneras e espalha o ódio e medo por onde passa. É preso em San Luis e divide a cela com vários oficiais espanhóis presos durante as lutas de libertação. Tais prisioneiros se sublevam e na fuga libertam os outros presos, entre os quais está Quiroga. Facundo aproveita a ocasião e mata quatorze espanhóis, evitando-lhes a fuga e tornando-se herói argentino. Era um homem-fera. Matava “a pontapés,... arrancava as orelhas de sua amante;... abriu a cabeça de seu filho Juan com uma machadada porque não havia forma de fazê-lo calar; esbofeteava, em Tucuman uma linda senhorita a quem não podia seduzir nem forçar”.[7] Usava o terror para intimidar e conseguir a lealdade de seus comandados. Após uma vitória, tendo que se retirar, executou oficiais de suas tropas evitando assim a possibilidade de traição durante sua ausência.
         Em 1820, fruto de sua fama contra os espanhóis, Facundo recebe o título de comandante de campanha. Derrota Francisco Aldao  em Llanos e sua fama não pára de crescer. Assume o governo da província e exige o pagamento de dízimos para repor custas de guerra. O gado não marcado após certa idade passava a ser considerado do fisco. Facundo exige que passe a ser marcado com sua marca. Possui La Rioja como árbitro e dono absoluto.
         Em 1825, a República se prepara para a guerra contra o Brasil e Facundo recebe a incumbência de derrotar o Coronel Lamadrid em Tucuman e obtém sucesso. É a primeira vitória de Quiroga fora de seus domínios, o que lhe aumenta a experiência e confiança.
         Rosas assume o governo da Província de Buenos Aires e torna-se líder de toda a Argentina. Alberdi afirmou que “os presidentes são reis por cinco anos, em todo o sentido da palavra, exceto no nome[8]”. Rosas foi rei por mais de uma década. Obriga que todos usem faixas vermelhas com inscrições contra os unitários. Impera o terror em toda a Argentina. Os unitários estão derrotados e banidos da nação.
         Quiroga controla a Região dos Andes: Jujuy, Salta e Tucuman. Ferré controla Catamarca e Corrientes. López domina La Rioja, Entre Rios, San Juan, Santa Fé, Mendoza e Córdoba. San Luis e Buenos Aires estão sob o controle de Rosas.
         Facundo estabelece residência à essa época em Buenos Aires.  Controla seus interesses de lá, mas incomoda muitos caudilhos com seu poder. Em 1835 Rosas convida Facundo para ir a Córdoba acertar divergências entre governadores que ameaçam ir à guerra. Parte de Buenos Aires precedido de um mensageiro que irá anunciá-lo a seus inimigos. Toda a cidade de Córdoba sabe dos detalhes da traição e que dali Facundo não sairá vivo.
         Santos Pérez, um gaúcho mau, o mata em 18 de fevereiro de 1835 em Barranca-Yaco com um tiro no olho.
         Sarmiento no livro dá a entender que Rosas foi o mentor do assassinato, sendo tal morte um ato oficial do governo portenho, apesar de todas as honras fúnebres prestadas pelo mandatário portenho.
         Na terceira parte é abordada a nação e a política. Sarmiento usa Facundo como pretexto para atacar Rosas, seu verdadeiro e grande rival.  Propõe a derrubada do caudilho e indica uma alternativa de governo calcada na educação e extinção dos bárbaros que assomam a Argentina. Seu projeto é o de um país unido e liberal. Grandes obras seriam feitas no futuro governo: a volta dos correios, o incremento da indústria e do comércio interior e exterior. Seria estabelecido o fim do isolamento argentino com o resto do mundo ( a Argentina sofria um bloqueio naval da França e Inglaterra).
         A idéia de Sarmiento era a de uma continuação do governo de Bernardino Rivadávia (1826-1827) que fora encerrado pela barbárie federalista. Um estado de direito que  promoveria o desenvolvimento econômico.
4 Conclusão
         O presente trabalho não visa ser um estudo profundo da situação política argentina no século XIX, pois tal assunto merece uma atenção especial e também um mergulho no pensamento de outros letrados, como Alberdi, Gutiérrez e Echeverría. Nossa intenção é demonstrar através de uma obra, a complexidade e ao mesmo tempo a clareza como os problemas políticos argentinos foram abordados por um dos seus mais famosos pensadores.
         Interessante foi notar a importância que Sarmiento deu ao estudo da História e a relevância da sua escrituração para a construção da nacionalidade. Poderíamos traçar um paralelo com a criação do IHGB no Rio de Janeiro, que tinha como escopo o registro e manutenção da História da Pátria que nascia. A geografia e a História eram fundamentais para o conhecimento dos fundamentos da Pátria.
         A obra de Sarmiento, a partir da oposição entre civilização (unitários) e barbárie (federalistas), consolidou o destino político do futuro presidente argentino reconhecido em todo o mundo, inclusive no rival Brasil, anunciando sua cruzada contra o analfabetismo e ignorância.
         A influência de Michelet, assim como a de Alexis de Tocqueville foram fundamentais no pensamento de Sarmiento. Queria ter sido um discípulo desse último, divulgando, através das teorias sociais, o mundo argentino para todas as nações, principalmente as européias. Afinal, o mundo começava e terminava na Europa.
         Da leitura de Facundo: civilização e barbárie tiramos o pensamento de uma corrente de letrados argentinos que em muito influenciaram na sedimentação da noção de nação argentina. Desses letrados extraímos o amor às coisas do campo que valorizavam as luzes das cidades. Dentro de tal pensamento era muito mais proveitoso a conciliação dos dois meios, o urbano e rural. A tipicidade da vida nos pampas e a civilização e cosmopolitismo de Buenos Aires, Córdoba e outras menores. Sobre tal visão, conseguimos entender os fenômenos ocorridos na Argentina no século seguinte, com o advento dos governos populistas, que muito apelaram para tais sentimentos presentes no universo cultural portenhos.
         A persistência das idéias revolucionárias, segundo Beired[9], na história da América Latina tem entre suas razões o fato de seus estados, à exceção do Brasil, serem formações políticas oriundas de revoluções que repercutiram em tais sociedades no século XIX.
Referências
Fontes bibliográficas
ALBERDI, Juan Bautista. Del Gobierno em Sud-América. Buenos Aires: Editorial Luz del Dia, 1954.
Beired, José Luis Bendicho. Revolução e Cultura Política na América Latina. In: DAYRELL, Eliane Garcindo & IOKOI, Zilda Márcia Gricoli (orgs.). América Latina Contemporânea: desafios e perspectivas. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura; São Paulo: EDUSP, 1996.
SARMIENTO, Domingo Faustino. Facundo civilização e barbárie. Petrópolis: Editora Vozes, 1997.
_________________________ . Recuerdos de la Província. Buenos Aires: Centro Editor de América Latina, 1979.
ZANETTI, Susana. Testemunho de uma leitora no início da República Chilena. In: ABREU, Márcia, SCHAPOCHNIK, Nelson (Orgs.). Cultura Letrada no Brasil: objetos e práticas. Campinas: Mercado das Letras, Associação de Leitura do Brasil (ALB); São Paulo: Fapesp; 2005.




[1] SARMIENTO, Domingo Faustino. Facundo civilização e barbárie. Petrópolis: Editora Vozes, 1997. p. 85.
[2] SARMIENTO, Domingo Faustino. Recuerdos de la Província. Buenos Aires: Centro Editor de América Latina, 1979.
[3] ZANETTI, Susana. Testemunho de uma leitora no início da República Chilena. In: ABREU, Márcia, SCHAPOCHNIK, Nelson (Orgs.). Cultura Letrada no Brasil: objetos e práticas. Campinas: Mercado das Letras, Associação de Leitura do Brasil (ALB); São Paulo: Fapesp; 2005.
[4] SARMIENTO, Facundo. Op. cit. p.92.
[5] SARMIENTO, op. cit. p.96.
[6] Ibidem, p. 134.
[7] Idem, ibidem, p.139.
[8] ALBERDI, Juan Bautista. Del Gobierno em Sud-América. Buenos Aires: Editorial Luz del Dia, 1954.

[9] Beired, José Luis Bendicho. Revolução e Cultura Política na América Latina. In: DAYRELL, Eliane Garcindo & IOKOI, Zilda Márcia Gricoli (orgs.). América Latina Contemporânea: desafios e perspectivas. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura; São Paulo: EDUSP, 1996. p.438.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Torcida bipolar


Cecília Meireles
Ou Isto ou Aquilo

Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

        Quando era garoto e estava sendo alfabetizado, estudava em livros diversos, como "As mais belas estórias" e também "As mais belas poesias". Uma poesia da qual nunca me esqueço, é a que transcrevi acima, de Cecília Meireles. Ela sempre me vem à cabeça quando estou em dúvida sobre qualquer assunto.
         Atualmente, o assunto que mais tem levantado dúvidas entre os torcedores do Cruzeiro é o que reza sobre a convocação de jogadores Cruzeirenses para a Seleção Brasileira. A grande maioria agora é contra a convocação, sendo que há menos de trinta dias a grande lamentação era a de que, na Seleção Brasileira que disputou a Copa do Mundo, não havia nenhum jogador celeste.
         Eu, particularmente, fiquei muito frustrado em não ter uma seleção para torcer durante a Copa do Mundo. Para a do Brasil é que não torceria mesmo, pois aquele ajuntamento de jogadores não me representava e muito menos representava o meu Brasil.
         Para mim, a Seleção tem que representar o futebol brasileiro e não times estrangeiros. Tem que ser uma seleção que conte com o que há de melhor em nosso país. Logicamente, alguns destaques excepcionais jogando no exterior devem ser convocados.
         Quando era menino, e lia Cecília Meireles ou Henriqueta Lisboa, os melhores jogadores em ação no país eram os que representavam a nação com as chuteiras. Era comum ver seleções que tinham a defesa de um time, o meio campo do outro e o ataque de um terceiro. Lembro-me que a maior seleção de todos os tempos, a de 1970, tinha três jogadores do Cruzeiro. A escalação base era: o goleiro do Fluminense, lateral direito do Santos, um beque do Cruzeiro e outro do Vasco e o lateral esquerdo do Grêmio. O meio de campo era composto de um jogador do Santos e outro do Botafogo. Já o ataque era fenomenal com um jogador do Botafogo, um do Santos, mais um do Cruzeiro e um do Corinthians. Como pode-se notar, todos os times grandes tinham um representante no escrete nacional. Era muito legal torcer para a seleção que tinha os jogadores de sua cidade e principalmente de seu time. Era um tempo em que havia mais amor à camisa, tanto do clube quanto da Seleção Brasileira. Aliás, já escrevi neste blog sobre como eram as coisas quando eu era adolescente:
http://anisiociscotto.blogspot.com.br/2014/04/no-meu-tempo-era-assim.html


         Nestes dias a cotação do time do Cruzeiro e seus jogadores subiu demais. Nada mais lógico que, treinador novo querendo fazer coisas novas, prestigie o time que tem enchido os olhos dos especialistas do futebol. Convoque do goleiro ao ponta esquerda de tal time.
         Muitos são contra, achando que, o fato de convocar o jogador do Cruzeiro vai nos enfraquecer. A memória curta e seletiva de alguns já deletou que muitos pontos que fizemos, neste campeonato de 2014, conseguimos usando um time reserva pois, o nosso titular estava sendo poupado para os jogos da Libertadores. Temos banco e precisamos valorizar nosso elenco com repetidas convocações. Como seria bom se, a exemplo do Bayern de Munique, nosso time fosse a base da seleção de Dunga! Se isso acontecer, que se pare o campeonato nas datas FIFA, assim como acontece nos campeonatos europeus.
         Entendo o receio de muitos torcedores que não tiveram a oportunidade de viver a experiência de ter a seleção formada por jogadores que atuam no futebol brasileiro. Afinal, acho que a última seleção que teve a maioria dos jogadores atuando aqui, foi a de 1994 nos Estados Unidos.
         Acho que é hora de voltarmos a aquele simpático costume de prestigiar os clubes daqui. Afinal, a nossa torcida é quem instigou cantando: Não é mole não! O Cruzeiro é melhor que a Seleção!

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Estamos perdendo o bonde das oportunidades.


        No dia 25 de julho de 2014 a presidente Dilma recebeu os dirigentes de Clubes para discutir a situação de penúria em que vive o nosso futebol. Os clubes procuram uma maneira de resolver a grave situação em que se encontra o nosso principal esporte. Foi combinado que seja montada uma comissão para discutir tal assunto.
        Não sou, absolutamente, contra uma ajuda do governo federal aos clubes de futebol. Muito antes pelo contrário. Se o governo isenta as fábricas de automóveis, móveis e eletrodomésticos de impostos é justo que os clubes sejam ajudados. Porém, uma coisa é ajuda, a outra é perdão. Acho justo que haja um programa de parcelamentos para os clubes, mas entendo que os clubes tenham que levar a sério tais compromissos.
        Da maneira como foi colocada, a princípio, a proposta de uma troca de dívidas fiscais por investimentos em esportes olímpicos. Ora, muitos dos clubes que ora suplicam por condições especiais, são os mesmos que fizeram projetos olímpicos maravilhosos e, no decorrer de alguns anos, deixaram nossos atletas olímpicos com uma nota promissória em suas carteiras. A primeira providência da nova diretoria do Flamengo foi extinguir vários departamentos de esportes olímpicos. O presidente do Atlético Mineiro, desdenhando as conquistas do vôlei Cruzeirense, sempre se gabou de ser mandatário de um time de futebol e não ter a menor intenção de montar outro departamento de qualquer outro esporte. Como então poderia dar certo tal programa?
        É cultura nacional ter pena e relevar os desmandos de torcedores que assumem a direção de clubes de futebol. É aceitável, para a maioria dos brasileiros, que dirigentes de clubes sejam candidatos a cargos eletivos, assim como radialistas, repórteres, atletas e outros militantes esportivos (a esmagadora maioria sem plataforma política ou sem saber o que deve fazer um legislador).
        Do jeito que a coisa anda, haverá um acordo para o parcelamento das dívidas e todos receberão as tão sonhadas certidões negativas de débitos fiscais. Deverá haver uma contrapartida de comportamento quanto a pagamentos do próprio parcelamento e também de salários e outras obrigações. Espero que isto aconteça.
As últimas demonstrações de desvelo econômico dos dirigentes de clubes contratando craques vindos da Europa, ganhando mais aqui do que ganhavam lá, nos mostram que o fair-play prometido pode se transformar em fumaça muito rapidamente.
        O Cruzeiro possui uma tradição muito antiga de honrar seus compromissos. Desde salários, passando por pagamentos a fornecedores e tributos o clube do Barro Preto sempre foi conhecido como um exemplo a ser seguido. As perseguidas certidões negativas sempre foram uma constante em nossos arquivos. O que a maioria dos clubes persegue, nós já temos há décadas. O que tal comportamento exemplar nos favoreceu? Em que fomos beneficiados por ter comportamento tão ilibado?
        Na minha opinião, a qual expresso há muitos anos aos administradores do Cruzeiro, perdemos uma enorme oportunidade de sairmos à frentes da concorrência em diversos aspectos. Financiamentos bancários, projetos de leis de incentivo, recursos a fundo perdido do Orçamento Geral da União, recursos de ministérios diversos, patrocínios de empresas estatais e muitas outras fontes de recursos.
        Agora, que todos terão as certidões, nos restará reclamar que as empresas procuram as equipes do eixo Rio-São Paulo, que a imprensa privilegia os outros grandes clubes ou mesmo que os contratos cariocas e bandeirantes são mais polpudos que os nossos.
Mais uma vez perdemos a oportunidade de usufruir das vantagens que, a tantas duras penas, construímos e preservamos.
Faltam, aos nossos administradores, pessoas que estejam a serviço do Clube e conheçam o mercado e suas diversas fontes de receitas.
Temos sim, muita gente que sabe como gastar, e como temos! Temos gente que se desespera vendo a porteira dos gastos aberta e tem que se virar para honrá-los. Já geramos um contencioso enorme de pontes de safena!
Eu sonho, e trabalho, para que o Cruzeiro se transforme no maior Clube de futebol do Brasil. Seja uma potência olímpica e um amparo social para a comunidade de minha cidade. Gostaria que fosse o sonho de outros que militam nas mesmas sendas.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

30 marcas mais valiosas do Futebol brasileiro


Reproduzo aqui um interessante texto de Emerson Gonçalves publicado em seu blog "Olhar Crônico Esportivo" na data de ontem.
Trata do valor da "Marca" e não de faturamentos, vendas de atletas ou patrimônio líquido. 
Seria interessante que o Presidente do Cruzeiro lesse com bastante atenção, para balizar suas próximas iniciativas no campo do Marketing Esportivo, e revisse certos contratos.
Boa leitura e o texto original pode ser encontrado no link abaixo:

http://globoesporte.globo.com/blogs/especial-blog/olhar-cronico-esportivo/1.html

OLHAR CRÔNICO ESPORTIVO

  • por Emerson Gonçalves


    A BDO lançou sua quarta edição anual do estudo sobre o valor das marcas dos clubes brasileiros. Nesse ano, com a inclusão de mais sete clubes – Criciúma, Paraná, Guarani, Atlético GO, Santa Cruz, Ceará e Fortaleza – a lista chega ao Top 30. Esse é um número interessante, sobretudo num momento em que a receita do mercado brasileiro de futebol chegou ao valor de 5 bilhões de reais em 2013, consolidando nosso futebol, e o Campeonato Brasileiro em especial, como um dos maiores do mundo.

    Metodologia
    Em sua análise para avaliação das marcas, a BDO seguiu a mesma metodologia dos sete estudos anteriores (três dos quais não foram publicados), seguindo uma rigorosa métrica que inclui 21 diferentes variáveis entre dados financeiros históricos dos clubes, informações publicadas em pesquisas com os torcedores, dados de marketing esportivo, hábitos de consumo dos torcedores e dados sociais e econômicos do mercado em que atuam os clubes analisados.
    As informações financeiras têm por base os balanços dos clubes e não incluem as receitas com transferências de jogadores, sendo divididas em quatro grandes áreas: Mídia (direitos de transmissão), Marketing, Estádios e Sócios.

    Evolução
    O valor dessas 30 marcas permanece em evolução, segundo a análise, fato explicado por um conjunto de fatores:

    ► 7 clubes SP– Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Santos, Portuguesa, Ponte Preta e Guarani.
    ► 4 Clubes RJ– Flamengo, Vasco da Gama, Fluminense e Botafogo.
    ► 3 Clubes PR- Atlético-PR, Coritiba e Paraná
    ► 3 Clubes PE- Sport, Náutico e Santa Cruz
    ► 3 Clubes SC - Avaí, Figueirense e Criciúma
    ► 2 Clubes RS – Grêmio e Internacional
    ► 2 Clubes MG – Cruzeiro e Atlético-MG.
    ► 2 Clube BA- Bahia e Vitória
    ► 2 Clubes GO – Goiás e Atlético GO
    ► 2 Clubes CE – Ceará e Fortaleza
      
    Pessoalmente, não concordo muito com o quinto item, em especial um aumento de interesse das empresas em se associar aos clubes. Essa é, na minha visão, uma área em que nossos clubes são fracos demais, sem contar que empresas estatais respondem por grande parte dos valores dessa rubrica. E, apesar do que dizem dirigentes de clubes e das estatais, esses patrocínios têm um conteúdo politico determinante. Esse ponto, principalmente, leva-me a não considera-los com muita seriedade, posição que adoto desde o início desse OCE.   

    Conforme exposto na introdução, a metodologia do estudo não permitiu que uma variável sozinha elevasse substancialmente as marcas dos clubes. Assim, além da força da torcida, o valor da marca considera outras variáveis como as receitas derivadas da sua marca, hábitos do torcedor e características do mercado local, fazendo com que o crescimento ou queda do valor da marca não seja atribuído a um aspecto isolado.
    Outro aspecto importante é que o estudo não considera o valor dos ativos registrados nas demonstrações contábeis dos clubes e sim as receitas derivadas por esses ativos. Assim, para um clube crescer no valor e sua marca, sempre é considerado o esforço de maximizar suas receitas e não o valor contábil do ativo em si.

    Crescimento firme

    De 2013 para 2014 o valor somado das 30 marcas cresceu 19%, um índice bastante elevado. No acumulado de cinco anos, a partir de 2010, o crescimento atingiu a marca de 76%, como mostra o gráfico:

    Os 10 clubes que mais cresceram em valor gerado para as suas marcas entre 2010 e 2014 foram: Corinthians com evolução de R$ 486 milhões, Flamengo R$ 381 milhões, Cruzeiro R$ 268 milhões, Santos R$ 263 milhões, Grêmio R$ 256 milhões, Atlético MG R$ 247 milhões, São Paulo R$ 219 milhões, Internacional R$ 185 milhões, Vasco da Gama R$ 183 milhões e Palmeiras R$132 milhões.
    Esses 10 clubes foram responsáveis por 82% dos R$ 3,2 bilhões de evolução do valor de marca registrado pelos maiores clubes brasileiros nos últimos 5 anos.
    A liderança do ranking das marcas mais valiosas do futebol brasileiro, depois de algumas alterações nos últimos 10 anos, com Flamengo (2009) e São Paulo (2004) disputando, tem se mantido nas mãos do Corinthians. O Corinthians, que figurou em segundo no ranking de 2009 e terceiro em 2004 vem liderando desde 2010.
    O Flamengo que foi líder em 2009, e, oscilou para a 3ª posição em 2010, vem mantendo a vice-liderança desde 2011, inclusive diminuindo a diferença para o líder no último ano. Já o São Paulo que estava em terceiro lugar em 2009 e tinha assumido a segunda posição em 2010, voltou e permanece na terceira posição desde 2011.
    O Palmeiras se manteve na quarta posição, o mesmo dos últimos anos e o Grêmio teve uma valorização de 33% no último ano, assumindo o quinto lugar, sendo seguido por Internacional e Santos.
    O maior destaque deste ano ficou por conta do crescimento dos clubes de Minas Gerais com o Cruzeiro e o Atlético MG registrando o maior crescimento percentual do ranking deste ano e dos últimos 5 anos, respectivamente. Apesar da aproximação do Fluminense, o Vasco da Gama fecha o ranking dos 10 clubes mais valiosos do país.
    Fluminense, Botafogo, Coritiba, Atlético PR e Bahia mantiveram suas posições em relação ao ano passado, mas agora são seguidos de perto pelo Vitória que apresentou um crescimento de 56% e, juntamente com o Sport, ultrapassou Goiás e Portuguesa.
    Náutico (20º), Figueirense (21º), Avaí (22º) e Ponte Preta (23º) mantiveram suas posições e, agora, são seguidos pelo Criciúma que registrou crescimento de 33% no último ano e ultrapassou Santa Cruz, Atlético GO e Guarani.
    Paraná, Ceará e Fortaleza completam o ranking dos 30 clubes mais valiosos do Brasil.

    Um dado interessante é verificar o crescimento em valor absoluto das marcas dos clubes (no próximo gráfico, mais abaixo), que demonstra a eficiente exploração desse ativo. O aumento de R$ 3,2 bilhões entre 2010 e 2014 no valor consolidado das marcas dos 30 clubes foi resultado do aumento de receitas e desenvolvimento no ambiente de negócios do futebol brasileiro.
    O crescimento demonstra uma real melhora dos projetos de marketing dos clubes nos últimos anos, que tendem a se intensificar, graças a um número cada vez maior de ações que os clubes estão implementando.

    Como disse mais acima, discordo em parte dessa visão da BDO e seus analistas, não vendo com tanto otimismo ou boa vontade essa real melhoria no marketing dos clubes brasileiros.

    O estudo avaliando as marcas dos clubes brasileiros demonstra que cada entidade possui características particulares, de acordo com o perfil de sua torcida, desenvolvimento das receitas, derivadas de sua marca e características do mercado local em que estão localizados.
    Segundo os profissionais da BDO, esse é o melhor mecanismo para mensurar o valor da marca dos clubes brasileiros. Essa metodologia possibilita avaliar o potencial comercial das marcas de cada clube, de acordo com seu perfil mercadológico.
    Muito diferente das empresas, que precisam incessantemente buscar novos consumidores de seus concorrentes, os clubes de futebol tem torcedores fiéis. O grande desafio para as marcas é conseguir converter esses milhões de torcedores em consumidores ativos e motivados.
    Segundo a avaliação, em 2014 o valor consolidado das 30 marcas mais valiosas entre os clubes de futebol do Brasil foi de R$ 7,39 bilhões. Segundo a metodologia empregada no estudo, as variáveis mais representativas para os clubes analisados foram as características e perfil de suas torcidas, com valor consolidado de R$ 3,55 bilhões, seguido das receitas derivadas das marcas com valor de R$ 2,29 bilhão e das características do mercado local, com valor de R$ 1,56 bilhão.
    Os dois próximos gráficos mostram o valor de cada uma das três grandes áreas e suas participações percentuais na formação do valor das marcas em 2014:
     

    A BDO considera que o potencial futuro de geração de receitas de cada marca dependerá de como os departamentos de marketing dos clubes conseguirão maximizar a relação com seus milhões de torcedores, potencializar suas receitas e explorar as características econômicas e sociais onde estão localizados.

    Pessoalmente, concordo com essa visão, mas volto a enfatizar que a dependência do marketing de empresas estatais e seus patrocínios com claro viés político não é saudável nem para o futebol e nem para a sociedade.