sexta-feira, 17 de abril de 2015

Memória - 2012: 70 anos de Cruzeiro!

Reproduzo aqui, a título de memória, a reportagem da Rede Globo feita pelo competente repórter Marcos Astoni, sobre os 70 anos de mudança de nome de Sociedade Esportiva Palestra Itália para Cruzeiro Esporte Clube.

O link da reportagem é:  http://globoesporte.globo.com/futebol/times/cruzeiro/noticia/2012/10/ex-palestra-italia-cruzeiro-festeja-os-70-anos-da-nova-identidade.html 

Boa leitura!


- Atualizado em

Ex-Palestra Itália, Cruzeiro festeja
os 70 anos da nova identidade

Fundado para ser somente um clube de colonos italianos, sócios
foram obrigados a mudar de nome por causa da Segunda Guerra Mundial

Por Belo Horizonte
 
O dia 7 de outubro é especial para o Cruzeiro. Afinal, foi nesta data que, há 70 anos, o clube passou a ter esse nome, em substituição ao original Palestra Itália, que era utilizado desde a fundação. Uma reunião extraordinária do Conselho Deliberativo, na sede do clube, em 1942, referendou a mudança, que foi obrigatória e imposta pelo governo.
MONTAGEM - Cruzeiro 70 anos (Foto: Editoria de Arte / Globoesporte.com)Cruzeiro comemora 70 anos do atual nome (Foto: Editoria de Arte / Globoesporte.com)
Um decreto federal, baixado uma semana antes, obrigava que quaisquer símbolos de Itália, Alemanha e Japão, nações em guerra com o Brasil, fossem usados no país. A mudança, porém, não foi tão simples como parece hoje em dia. Ela foi repleta de episódios de violência e intolerância, dos quais os italianos e seus descendentes foram vítimas.
Palestra Itália
Anisio Ciscotto, vice-presidente do Conselho Deliberativo do Cruzeiro e da ACIBRA-MG (Foto: Marco Antônio Astoni / Globoesporte.com)Anisio Ciscotto conta histórias do Palestra Itália
(Foto: Marco Antônio Astoni / Globoesporte.com)
A Societá Sportiva Palestra Itália foi fundada no dia 2 de janeiro de 1921, como clube da colônia italiana em Belo Horizonte, assim como o Palestra Itália de São Paulo, atual Palmeiras, que emprestou o primeiro estatuto para o homônimo mineiro. Em uma época em que a influência dos italianos era grande na capital de Minas Gerais, o clube não demorou a se tornar popular, como conta o historiador Anísio Ciscotto, vice-presidente do Conselho Deliberativo do Cruzeiro e da Associação Cultural Ítalo-Brasileira de Minas Gerais.
- Houve uma época que, em Belo Horizonte, havia mais italianos e descendentes do que brasileiros de outras origens. O Palestra Itália foi uma criação do consulado da Itália. O país investia muito nos italianos que viviam nos Estados Unidos, na Argentina e no Brasil, por exemplo, para que as pessoas não perdessem a identidade com a Itália. Os italianos tinham muitas atividades em Belo Horizonte e existia um orgulho muito grande disso.
O ‘time dos italianos’ conseguiu fazer frente aos maiores clubes da cidade na época, Atlético-MG e América-MG, e conquistou cinco títulos estaduais como Palestra Itália, em 1926, o tri entre 1928 e 1930 e em 1940, até que um certo conflito mundial mudou para sempre a pacata história do clube e da colônia.
Segunda Guerra Mundial
O Brasil rompeu relações diplomáticas com os países do eixo, Itália, Alemanha e Japão, em janeiro de 1942. Depois disto, 19 navios brasileiros foram torpedeados no Atlântico, o que causou a morte de mais de 700 pessoas e fez com que Getúlio Vargas, o presidente da época, se juntasse aos aliados na Segunda Guerra Mundial.
A partir deste momento, a situação dos italianos em Belo Horizonte ficou complicada, já que agressões e perseguições a seus estabelecimentos comerciais passaram a ser fato comum. Além disso, muitos deles achavam que o Brasil deveria entrar ao lado da Itália na guerra, o que gerou ainda mais conflitos, como relatou Anísio Ciscotto.
- Quando o Brasil declarou guerra à Itália, para muitos italianos, foi uma traição. Aconteceram embates tremendos, brigas nas escolas. Muitos filhos de italianos foram agredidos, e o consulado foi queimado. Os brasileiros foram em cima dos italianos para se vingarem dos torpedeamentos contra os submarinos, que foi o motivo para o Brasil entrar na guerra.
Bruno Falci, ao lado da foto do avô Antônio Falci, ex-presidente do Cruzeiro (Foto: Marco Antônio Astoni / Globoesporte.com)Bruno Falci, ao lado da foto do avô Antônio Falci
(Foto: Marco Antônio Astoni / Globoesporte.com)
O empresário Bruno Falci, neto de Antônio Falci, presidente do Palestra Itália em 1927 e entre 1929 e 1930, contou um episódio interessante, em que a loja da família escapou de ser incendiada, o que poderia ter resultado em uma tragédia de grandes proporções, já que o estoque estava repleto de dinamite.
- Houve uma retaliação muito grande contra as colônias italiana e alemã. Nossa empresa tem origem italiana, e todo mundo sabia disso. Na época, alguns vândalos incendiavam comércios e tentaram fazer isso conosco. Algumas pessoas amigas tiveram essa informação antes e, empunhando bandeiras do Brasil, conseguiram impedir, dizendo que era uma casa brasileira. Com isso, eles se dispersaram e não puseram fogo na loja. Na época, vendíamos dinamite e, se houvesse um incêndio, ele não só destruiria nosso negócio, mas o quarteirão inteiro e mataria muita gente que estivesse por perto.
De Palestra a Cruzeiro
Baixado em 31 de agosto de 1942, um decreto-lei obrigou a extinção de símbolos e nomes relacionados aos três países do eixo. A imposição atingiu em cheio o Palestra Itália, que teve que providenciar a mudança de nome, não sem confusão e mais problemas. Anísio Ciscotto falou sobre as divergências dentro do clube.
- Trinta dias depois que o Brasil entrou na guerra, saiu a lei. Isso foi demais para os italianos. Os mais sensatos concordaram, e os mais exaltados não queriam de jeito nenhum. Um conselheiro do Palestra chegou a sugerir que se pegasse em armas para que o clube se tornasse um foco de resistência. Foi uma coisa muito séria, não foi simplesmente chegar e mudar o nome do clube. Isto mexeu com a vida das pessoas.
Bruno Falci lembrou os relatos do pai, que contou o drama vivido pelo avô e como eles se viraram para sobreviver e escapar das perseguições.
- O clube teve que mudar de nome, o que não findou o problema, mas amenizou. O uniforme do Palestra era nas cores da bandeira italiana, o que teve que ser mudado. Meu avô e vários amigos dele, da colônia, eram muito conhecidos. Não havia como apagar essa identificação com a Itália do dia para a noite. O que eles conseguiram foi dar uma abrandada. Disseram que moravam aqui e já se consideravam brasileiros. O italiano já tem todo aquele jeito e aquele jogo de cintura de administrar situações de conflito, tipo o brasileiro.
Após usar, provisoriamente, os nomes Palestra Mineiro e Ypiranga, os conselheiros finalmente decidiram por Cruzeiro. Um ex-presidente do clube usou um jeitinho de agradar a italianos e brasileiros, ao usar um símbolo do Brasil, a constelação do Cruzeiro do Sul, em uma camisa idêntica à da Itália.
- Um conselheiro, Osvaldo Pinto Coelho, ex-presidente do clube, sugeriu o nome Cruzeiro. E ele foi muito político. Pra agradar à ala italiana, falou: “olha, nós vamos deixar de ser Palestra Itália e vamos virar Cruzeiro. Nós vamos mostrar para o governo brasileiro que nós somos brasileiros. Somos patriotas, porque o Cruzeiro, as cinco estrelas, está presente na bandeira nacional, nas armas da república, no selo da república. Tudo o que representa o Brasil é o Cruzeiro do Sul. A principal honraria que o governo brasileiro dá para uma pessoa, um estrangeiro, é a ordem do Cruzeiro do Sul. Então, o Cruzeiro é o Brasil. Então vamos botar o nome Cruzeiro. Agora, vamos colocar em uma camisa azul. Agora, para nós, italianos, é o uniforme da seleção italiana. Vai ser um tapa de luvas”. Os italianos se sentiram valorizados e aprovaram o nome Cruzeiro.
Clube do mundo
Antes restrito à colônia italiana, o Cruzeiro virou um clube do mundo, com torcida estimada em quase oito milhões de pessoas e com um currículo de conquistas invejável, que conta com duas Taças Libertadores, duas Supercopas, uma Recopa Sul-Americana, dois Campeonatos Brasileiros e quatro Copas do Brasil, além de vários torneios interestaduais e estaduais. Para Anísio Ciscotto, o 7 de outubro, data em que surgiu o Cruzeiro, deve ser comemorado com a mesma intensidade do 2 de janeiro, data de fundação do Palestra Itália.
torcida cruzeiro comemora título mineiro (Foto: Tarcísio Badaró / Globoesporte.com)Torcida do Cruzeiro comemora um dos títulos de sua história (Foto: Tarcísio Badaró / Globoesporte.com)
- O 7 de outubro é tão importante quanto o 2 de janeiro. No dia 2 de janeiro nasceu o clube, a instituição, e, no dia 7 de outubro, a instituição assumiu sua personalidade, não de clube italiano, não de clube de Belo Horizonte, mas de um clube do Brasil, que, depois, virou um clube do mundo.
De fato, o torcedor cruzeirense tem muito que comemorar, pois o clube é símbolo de união, já que agregou todas as raças e classes sociais em torno de si, sendo um dos mais populares do Brasil. O Cruzeiro foi forte e venceu um episódio de intolerância, saindo fortalecido de uma guerra mundial.
Parabéns ao Cruzeiro, que começou como um clube somente de italianos, mas que hoje é de milhões de brasileiros de todas as origens.

2 comentários:

  1. Prezado Anisio Ciscotto,

    Deixe me apresentar: Sou Breno Martins Professor Mestre historiador formado pela UFMG e moro em Ipatinga onde atuo na rede privada do ensino médio e superior. Estudamos juntos! A história do Cruzeiro é um desdobramento do anacronismo do governo varguista. Belo texto! Sou também um formador de opinião na região (tenho centenas de alunos dou consultoria para os jornais locais em diversos assuntos - http://diariodoaco.com.br/noticia/92475-4/cultura/tiradentes-e-o-maior-heroi-brasileiro, http://www.diariodoaco.com.br/noticias.aspx?cd=76544) e desde sempre, quando estudamos juntos nas disciplinas com o professor Vinhosa, nutri profundo respeito por sua posição política no nosso time. Estudioso que é, deve se lembrar daqueles anos de 1978 a 1983, ou mais ainda de uma administração ruim da década de 1980. "Conquistamos" uma semi final em 1987 e demos uma goleada em 1984. E só! Estou aqui para elogiar seu texto e empenho na vanguardista história do nosso time, mas para reclamar com toda a transigência possível que carecemos de um lateral direito, meio armador e talvez até de mais comando. Sempre fomos uma raposa, quando o jornalista Mangabeira assim nos carimbou com um mascote histórico. O que peço como torcedor, mobilizador e formador de opinião é reação em conformidade com a história de nosso time, de forma estratégica, inteligente, completamente diferente de ontem! Sem "cornetagem" casual, mas pelo respeito à história da raposa. Não fracassamos, é verdade! Mas sabemos o que faltou ontem. Precisamos de um líder histórico tal qual foi Tostão, Dirceu Lopes, Raul Plasmsnn, Ademir, Ricardinho, Alex. Precisamos construir líderes identificados com a nossa história. Talvez assim consigamos criar um time mais aguerrido. Lembro-me que muitos grandes líderes foram os gaúchos. São estes líderes que criam identidade, sentimento de pertencimento e paixão. É o exemplo deles em campo! De forma comovente, se entregando de corpo e alma. Não conheço a história do Cruzeiro tão bem como o Sr., mas sou um profundo estudioso. Vencemos o São Paulo na estréia do Morumbi; sabe-se também que nosso rival sempre teve maior trânsito político na capital, não é à toa que foram "anistiados fiscais" por anos a fio. Muito longe do conformismo, somos mobilizadores! Vou ao minerão terça para apoiar! A propósito, pretendo realizar meu doutouramento na história social dos imigrantes da capital mineira!

    Pela posição política e histórica que ocupa,
    pelo poder de decisão que possui no Cruzeiro e, principalmente, pelo respeito à história do futebol na capital, em nome de milhares de cruzeirenses do vale do aço, envio este manifesto histórico.

    brenozeferino@yahoo.com.br

    Abraço
    Professor Breno Martins Zeferino

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    1. Olá, Breno!
      O que e preocupa muito é a vontade da atual administração de desfazer tudo o que os anteriores fizeram. Cruzeiro sempre foi célebre por suas ações de bastidores, pagamentos de contas e brio.
      Hoje, muito disso se perdeu.
      Amo meu Clube e sei que tempos melhores retornarão.
      Um abraço,
      Anísio.

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