quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Um Personagem do Cruzeiro: Zezé Perrella






Conheci Zezé Perrella nos idos de 1993 quando passei a fazer parte do Conselho Deliberativo do Cruzeiro. À época, o Presidente do Clube era o ítalo-descendente César Masci que fazia uma belíssima administração.
Eu era gerente–adjunto da agência Barro Preto da Caixa e trabalhei na unificação dos depósitos da extinta Minas Caixa que migraram para a Caixa Federal. O Cruzeiro possuía sua movimentação financeira na Minas Caixa e, a partir da sua extinção, os recursos celestes passaram para minha agência. Passei a conviver com o Clube que sempre amei de maneira muito prazerosa, sendo que meus contatos com César Masci eram quase diários.
  Um dos esteios da administração de César Masci era um jovem empresário do ramo dos frigoríficos que havia comprado o tradicional Frigorífico Perrella e estava em plena expansão de seus negócios, ao lado do irmão Alvimar e do primo Paulo César. Seu nome era José de Oliveira Costa e seu apelido no Cruzeiro era Zezé do Perrella. Enquanto Masci administrava o futebol profissional, Zezé era o responsável pelas divisões de base e fez um belíssimo trabalho. Quando muitos atribuem a revelação de Ronaldo Fenômeno a César Masci (o que é certo, pois ele era o Presidente), na verdade quem recebeu o então garoto na Toca da Raposa I foi o Superintendente de Futebol de Base Zezé Perrella. Prova disto é que, quando Romário inaugurou seu bar temático na Barra da Tijuca, o Café Gol, havia uma galeria de camisas de times de futebol onde a camisa do Cruzeiro, doada por Ronaldo Fenômeno, trazia estampada em seu peito a marca dos Frigoríficos Perrella, que tinham sido patrocinadores da base Cruzeirense durante a gestão de Zezé como Superintendente. Foi uma maneira de Ronaldo homenagear Zezé.
Zezé se destacava entre os Conselheiros do clube pela sua visão, arrojo e grande tino comercial. Fiz logo amizade com ele, pois pensávamos muito igual a respeito de um futuro brilhante para nosso clube. Já naquele tempo, ser Conselheiro era uma luta muito grande, pois eram poucas as vagas na chapa da situação. Tornei-me Conselheiro Efetivo rapidamente sob os auspícios de César Masci e Zezé Perrella que me apoiaram. A força de Zezé junto à diretoria do Clube era impressionante e era ele o responsável pelas garantias bancárias que o Cruzeiro dava aos bancos com os quais operava.
Em novembro de 1994 o Cruzeiro passou por uma crise enorme e quase foi rebaixado. Naquele mês também houve eleição para a Presidência do Clube, sendo Masci candidato à reeleição. Entretanto, não se sabe o porquê, ou sabe-se muito bem, um sobrinho de César Masci começou uma campanha de difamação do tio, que ganhou grande repercussão na mídia mineira, principalmente nos veículos dos Diários Associados. Notícias envolvendo questões pessoais, religiosas, financeiras e de relacionamento da família Masci foram exploradas à exaustão pelos jornais. No dia 13 de novembro aconteceu o clímax: o Cruzeiro foi derrotado por 5X1 para o clube do Remo no Mineirão e César Masci anunciou que retirava sua candidatura à Presidência do Cruzeiro!
A diretoria manteve a chapa da situação retirando o candidato à Presidência e colocando Zezé Perrella como cabeça de chapa. Reza a lenda no Clube que Zezé deveria retirar sua candidatura horas antes do pleito para que César Masci retornasse ao posto principal, o que, quando deveria acontecer, não aconteceu e deixou César possesso. Virou inimigo político de Zezé mantendo a tradição das brigas de raposas políticas. Depois se enfrentaram em uma eleição pela Presidência, vencida por Zezé. Hoje voltaram às boas.
Eleito Zezé, formou uma equipe pequena, mantendo a base da estrutura que apoiava César Masci e fazendo de Francisco Lemos seu guia e orientador. Dessa pequena equipe faziam parte Aristóteles Loredo que foi, e é ainda, o grande modernizador do Clube no que tange a Tecnologia da Informação. Também de grande auxílio para Zezé nos primeiros momentos de Presidência foi a presença de Domingos Costa, proprietário do Pastifício Vilma, que deu um toque de empreendedorismo junto ao Clube. Novas receitas e novas fontes de recursos passaram a fazer parte do rol de operações que o Cruzeiro faria. Outras pessoas auxiliaram Zezé Perrella em seu início de administração e eu contribuí fazendo parte de uma equipe que reformulou atividades da área financeira do clube, àquela época gerida pelo querido João Paranhos.
Zezé provocou um verdadeiro choque na gestão do Clube e formou uma equipe competitiva que durante muitos anos deu muitas glórias ao Esquadrão do Barro Preto. Trocou garotos da base (Beletti e Serginho) por alguns jogadores rodados com o São Paulo e se sagrou campeão de vários títulos importantes. Aproveitou de uma noitada confusa de atletas profissionais (a festa na casa de Macalé) e expurgou uma grande quantidade de jogadores e empregados do departamento de futebol. Reformou as sedes sociais e construiu a Toca da Raposa II e a sede administrativa. Certa feita comemorávamos, com um churrasco é claro, a inauguração das churrasqueiras da sede campestre. Perguntei a ele quanto havia gasto na reforma e fiquei sabendo que tinham sido trinta mil reais. Perguntei se achava pouco ou muito e a resposta foi uma pérola que reflete bem o pensamento de Zezé: Com trinta mil pago o salário de Macalé e desagrado milhares de torcedores; com trinta mil conserto as churrasqueiras e agrado quinze mil sócios. Prefiro gastar na segunda opção...
Em 1988, apenas três anos após ser eleito, apresentou seu projeto político aos amigos Conselheiros, avisando que seria muito importante para o Cruzeiro se tivéssemos um representante na Câmara dos Deputados para defendermos nossos interesses. A princípio fui contra, pois soava como oportunismo e uso inadequado da nossa marca, mas com o decorrer do tempo e durante o mandato de Zezé, pude ver que realmente foi muito benéfico para o Cruzeiro ter um Presidente deputado federal. Os ruídos das CPI do futebol reverberaram sobre o Barro Preto e, através da atuação de Zezé, pudemos provar a lisura das contas Cruzeirenses.
Infelizmente, a partir do segundo mandato, que foi como deputado estadual o político passou a prevalecer sobre o dirigente esportivo, fato este sobejamente comprovado após a posse como senador da República, quando, ao final do ano, o nosso time quase caiu para a segunda divisão do futebol brasileiro.
Hoje, a impressão que tenho é que não mais teremos o genial Zezé Perrella na direção do clube, o que é uma pena. Na minha avaliação, caso retorne como presidente, não comandará o clube, delegará a pessoas de sua confiança que, logicamente, não possuem seu tino administrativo e comercial.
Conservo de Zezé a amizade, de longe, e a gratidão pelo apoio que me deu em minha trajetória dentro do Cruzeiro.
Hoje Zezé não é mais um colega de Conselho Deliberativo que, junto com seu irmão, freqüentava as festas da Sede Campestre com os cabelos a lá Chitãozinho e Xororó. Hoje é uma figura pública que freqüenta as páginas dos jornais e colunas sociais, redes sociais, noticiários da TV e os caminhos políticos de Brasília de diversas formas e em diversos assuntos. 


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